
Porque o destino das grandes bandas norte-americanas é basicamente o mesmo: ficar mais e mais careta a cada disco que lança? Se a banda for de hard rock, então, piorou. É incrível como, por exemplo, o Bon Jovi tem lançado músicas chatas e fofinhas (não no sentido Weezer) desde o CD “Keep The Faith” (1992).
A impressão que tenho é a de que Jon e seu parceiro Ritchie Sambora pensaram o seguinte: “escuta, e se em vez de fazermos músicas para quem gosta de rock, passarmos a compor canções pop água com açúcar e com letras de autoajuda? Assim, o diretor da Chrysler poderá ouvir na casa dele com a família, sem ser ofendido pela distorção da guitarra ou por uma letra que fale de sexo. Garanto que conseguiremos manter os nossos fãs da década de 1980, que, afinal, estão envelhecendo e encaretando. Como bons norte-americanos brancos e cheio de complexos, acho que eles vão adorar esse novo rumo na nossa carreira”. “Sensacional, Jon. Vamos alisar nossos cabelos e comprar roupas de grifes”. “Você é demais, Ritchie. Avise o Tico, o Hugh e o David que eles passarão a ganhar um vale roupa de mauricinho a partir do próximo disco”. Claro que fiz uma previsão frívola do que deve ter acontecido com o Bon Jovi. Mas acho que é bem por aí.
E o Guns? Na década de 1980, Axl Rose era tão atrevido, com seu visual selvagem e agressivo. No auge do Guns – que durou entre 1987 e 1993 – , ele e seus parceiros Duff, Slash, Matt (Steven), Dizzy, Izzy (Gilby) misturavam o melhor do punk, hard rock, blues e rock progressivo. Tudo feito em doses perfeitas, que resultaram em pérolas do porte de “Coma”, “Dead Horse”, “The Garden”, “November Rain”, “Estranged” e “You Ain’t The First”. Mas algo ali já não cheirava bem. Principalmente quando a banda aparecia com cafonices sem vergonhas como “Don’t Cry”, “Patience” e “Used to Love Her”.
E o que aconteceu antes da banda completar uma década? Axl, em um ataque de megalomania, demitiu todos os integrantes e se enfurnou no estúdio para gravar o disco mais caro e demorado da história: “Chinese Democracy”. Foram 15 anos de espera e o que ele ofereceu aos fãs? Um apanhado de músicas datadas, que mais parecem sobras de estúdio de um disco do Tool. Pelo menos, Axl ousou e não quis fazer como o Bon Jovi, que enveredou pela linha segura em que se encontra o Goo Goo Dolls.
O Aerosmith é outro caso típico de banda norte-americana que começou fazendo rock para quem entende e gosta do riscado e, aos poucos, foi amaciando seu som até ser aceitável no toca-CDs dos playboys que vão para baladas da Vila Olímpia. Isso começou mais ou menos com o lançamento do “Get a Grip”, em 1993. Tá certo que o CD trazia boas canções, mas era o início da produção das baladas épicas (“Cryin’” e “Crazy”) e feitas para agradar menininhas acéfalas.
O Van Halen, apesar de ter ser formado pelos irmãos holandeses Eddie e Alex, trilhou a mesma trajetória de outras bandas norte-americanas. Começou agressivo e pesado com o louco David Lee Roth nos vocais e foi ficando cada vez mais “família” com a entrada de Sammy Hagar. O próprio Roth ilustra bem essa decaída da banda: “Quando eu fazia parte do Van Halen, os fãs tinhas vontade de beber, brigar e fazer sexo. Com a entrada do Sammy, o som do Van Halen passou a dar vontade de tomar café, ter uma família e usar terno e gravata”.
O engraçado é que as bandas inglesas de hard rock/heavy metal não encaretaram como seus pares norte-americanos. Acredito que muito disso se deve à cultura de cada país. Nos EUA, é comum envelhecer e se transformar num legítimo WASP que adora cantores populares sem graça e Dave Matthews Band. Na Inglaterra, não. A terra da rainha é repleta de pubs e casas de shows que recebem adultos ávidos por cerveja no fim do dia. Há espaço para bons shows e público interessado em vê-los.
E se essa análise cultural é superficial, pelo menos no que se refere às bandas não o é. O Deep Purple, por mais discos medianos que tenha lançado, jamais se afastou do estilo que o consagrou. As guitarras pesadas, os teclados virtuosos e os vocais agudos continuam lá, como na década de 1970. O Led Zeppelin acabou, mas seus ex-integrantes colaboram positivamente para a música mundial. Robert Plant lançou bons trabalhos, em particular “Raising Sand”, feito em parceria com a cantora country Alisson Krauss. John Paul Jones, por sua vez, colabora com gente como Dave Grohl, um dos poucos norte-americanos que ainda não encaretaram (ao lado dos rapazes do Metallica). Jimmy Page também tem pontos positivos na carreira, como álbuns lançados em parceria de Robert Plant, Roy Harper, David Coverdale e Black Crowes.
Se fosse citar outras bandas britânicas que ainda fazem rock sem concessões, talvez precisasse dividir esse post em dois. Mas vou me limitar a esses exemplos e recordar que o AC/DC (australiana com pé na ilha), Black Sabbath, Motörhead, Iron Maiden e Judas Priest continuam na ativa, tocando pesado e para agradar os tímpanos dos beberrões e desdentados ingleses – e porque não dos pardos brasileiros?. Enquanto isso, Jon Bon Jovi come cereal matinal em sua casinha asséptica na cidade de New Jersey. No espelho, ele enxerga satisfeito um rostinho bonitinho, dentes brancos, cabelo cuidadosamente penteado, barba feita, camisas bem cortadas e comemora, ligando para seu amigo alcoólico e de vida dupla: “Ritchie, conseguimos fisgar o público cafona de meia idade e os jovens sem critério musical. Parabéns, amigo. Somos uma espécie de Igreja Universal do Reino de Deus da música”.
Por que o destino das grandes bandas norte-americanas é basicamente o mesmo: ficar mais e mais careta a cada disco que lança? Se a banda for de hard rock, então, piorou. É incrível como, por exemplo, o Bon Jovi tem lançado músicas chatas e fofinhas (não no sentido Weezer) desde o CD “Keep The Faith” (1992).
A impressão que tenho é a de que Jon e seu parceiro Ritchie Sambora pensaram o seguinte: “escuta, e se em vez de fazermos músicas para quem gosta de rock, passarmos a compor canções pop água com açúcar e com letras de autoajuda? Assim, o diretor da Chrysler poderá ouvir na casa dele com a família, sem ser ofendido pela distorção da guitarra ou por uma letra que fale de sexo. Garanto que conseguiremos manter os nossos fãs da década de 1980, que, afinal, estão envelhecendo e encaretando. Como bons norte-americanos brancos e cheio de complexos, acho que eles vão adorar esse novo rumo na nossa carreira”. “Sensacional, Jon. Vamos alisar nossos cabelos e comprar roupas de grifes”. “Você é demais, Ritchie. Avise o Tico, o Hugh e o David que eles passarão a ganhar um vale roupa de mauricinho a partir do próximo disco”. Claro que fiz uma previsão frívola do que deve ter acontecido com o Bon Jovi. Mas acho que é bem por aí.
Continuar Lendo »